Esse mundo é mesmo maluco. À primeira, pensei ter escolhido o errado, o louco, o misteriosamente obscuro, o sádico. Escolhi enviar o indigesto. E olha que insano: de alguma forma, o indigesto bicho-gente foi bem vindo, foi aceito. Entrou, bagunçou tudo, foi embora e deixou saudade. Mas o indigesto é muito mau, é nocivo. É como uma droga que vicia, entorpece, faz viajar para uma outra dimensão. Mas depois, essa mesma droga, faz sentir dor, faz delirar, faz viciar. Pois eu dei muito campo pro indigesto. Deixei que fosse e fizesse morada, fizesse sua arruaça.
A consciência pesou. Eu via o indigesto cometendo o seu crime a cada dia, matando aos pouquinhos. Prometi prender o bandido indigesto e jamais deixá-lo sair. Prometi deixar o mocinho livre pra passear sem medo. E assim o fiz. O indigesto havia deixado grandes marcas. Deixou viciados, deixou pessoas que precisavam de uma ajuda, de um alguém, de um mocinho. Pois o mocinho chegou. Com sua bondade, seu amor, seu carinho, sua atenção, paciência, solidariedade e tudo que só o mocinho, verdadeiramente, tinha. O mocinho parecia morfina para os que agonizavam em dor. Mas ele era melhor. Era a verdadeira cura, era o fim do vício. E ele curou a todos.
O problema é que, depois de curados, os viciados não precisavam mais de um mocinho e o mocinho só existe se existem os viciados. O mocinho busca os desesperados, os desamparados. Se o indigesto fica preso, acabam os viciados, e assim, acaba o mocinho. O indigesto é a praga, é o que destrói. O mocinho é o que reconstrói. O indigesto precisa de algo construído pra destruir e o mocinho de algo destruído pra restaurar. Precisam um do outro. Não são nada sozinhos. Mas eu quebrei a ordem das coisas. Quis mudar a lógica e isso não posso fazer. Fiz uma promessa que não posso cumprir. Prometi não mais soltar o indigesto. Porra! Não posso cumprir essa promessa. O mocinho perdeu a razão de ser. Não tem ninguém precisando dele.
Então foda-se! Vou soltar esse vírus de novo. Vou deixar a personagem atuar. Vou deixá-la brilhar nas telas da vida. Vou deixar o indigesto voltar pra restaurar a desordem. Que ele faça o que sabe fazer. Que ele seja injetado, bebido, tragado. Que seja bem vindo de novo. Que se torne viciante e destruidor. Sim! Ele deve revirar tudo de cabeça pra baixo, porque, só assim, o mocinho pode voltar.
Desculpa, mas se não for assim, então não será mais nada. -Soltem o indigesto bicho-gente!